Pellets no Sul: padronização e mercado térmico regional
“O comprador não quer saber quantos toneladas você produz por mês. Quer saber se o lote de junho tem a mesma umidade do lote de março.” — Gerente de suprimentos, laticínio no norte do Paraná
Há uma década, falar em pellets de madeira no Rio Grande do Sul e no Paraná era sinônimo de exportação ou de nicho residencial. A conversa mudou. Frigoríficos, laticínios, secadores de grãos e pequenas indústrias de alimentos passaram a contratar vapor gerado com biomassa — e muitos exigem pellet em vez de cavaco solto, por previsibilidade na alimentação automática e menor volume de cinzas.
Produtores regionais que visitamos em Lajeado, Erechim, Cascavel e Toledo investiram em peletizadoras de capacidade entre 1,5 e 4 toneladas por hora. O desafio não foi comprar equipamento: foi manter especificação estável ao longo do ano, com madeira de umidade variável e sazonalidade de colheita florestal.
Umidade e especificação
O mercado térmico regional trabalha com faixa de umidade entre 8% e 12% — valores que operadores de caldeira de médio porte consideram seguros para alimentação sem parada por entupimento. Produtores que entregam lotes entre 14% e 18% perdem contrato na segunda entrega, mesmo com preço mais baixo.
Em uma unidade familiar próxima a Erechim, o fluxo que funcionou foi: secagem em tunel antes da peletização, amostragem de três pontos por silo e registro de lote com data de produção. O custo extra de secagem foi compensado pela eliminação de devoluções — que antes consumiam caminhão e mão de obra duas vezes por mês.
Secar depois de peletizar é tentar consertar na saída o que deveria ter sido resolvido na entrada.
Poder calorífico também entra na conversa. Compradores corporativos pedem laudo ou estimativa documentada — tipicamente entre 4,5 e 5,2 kWh/kg para pellets de pinus e eucalipto na região. Sem número, a negociação volta para “preço por tonelada” e ignora eficiência real da caldeira.
Rastreabilidade florestal
Desde 2024, compradores de médio porte no Paraná passaram a exigir declaração de origem da madeira — não necessariamente certificação FSC completa, mas rastreio de fazenda ou serraria fornecedora. Produtores que misturam resíduo sem identificação enfrentam auditoria de cadeia e risco de cancelamento de contrato anual.
Cooperativas de pequenos produtores em Cascavel organizaram planilha compartilhada de fornecedores, com CNPJ, tipo de madeira e volume mensal estimado. O modelo é simples, mas permitiu a um grupo de cinco propriedades atender exigência de um laticínio que antes importava pellets de outro estado.
Contratos térmicos regionais
Contratos típicos no Sul incluem volume mínimo mensal, janela de entrega e penalidade por umidade fora de faixa. Alguns compradores aceitam cláusula de revisão trimestral de preço indexada ao custo de secagem — mecanismo que reduziu disputa quando o gás natural subiu e a biomassa ficou relativamente mais competitiva.
Um frigorífico de aves no oeste catarinense fechou contrato de 18 meses com produtor local após período piloto de três meses. A condição foi instalação de silo no comprador com medição de umidade na descarga — dado que alimenta relatório mensal compartilhado.
Perspectivas
O mercado térmico regional de pellets no Sul ainda é fragmentado. Importados de outros estados competem em preço quando o frete é diluído em volume grande. O diferencial do produtor local continua sendo resposta rápida, rastreio e adaptação a especificação do comprador — não escala industrial.
Para quem está começando: investir na peletizadora antes de fechar o fluxo de secagem e registro de lote é o erro mais comum que documentamos. A ordem que funciona é especificação acordada com comprador, depois secagem, depois produção com identificação de lote.
Atualizado em 12 jun 2026